O brasileiro é o ser mais definível do mundo. Explico. Não há cidadão do planeta que esteja mais perto do conceito que se lhe faz do que o que aquele nascido no Brasil. Por outra: O brasileiro de anedota é o mesmo brasileiro da carne e do osso.

Pois então, eu mesmo. Sou um brasileiro nato. E como tal, fiz jus à fama de acomodado e não escrevi neste blog por mais de mês. Vocês, quatro ou cinco (ou até dez, a glória suprema!) leitores, por sua vez, são tão acomodados e resignados quanto eu, e nem sequer passaram aqui desde o segundo dia sem atualização. Uma forma delicada de evitar novas e até entediantes leituras.

Há ainda a seleção brasileira de futebol. Quem viu os 3 a 0 aplicados sobre a esquadra chilena, pensou tratar-se de uma distorção do espaço-tempo. Como um time treinado e escalado por Dunga era fluido, fazia gols e mostrava um brio inacreditável para com a canarinha desde, pelo menos, vejamos, desde um Chicão, o Bruto?

E o motivo, no entanto, residia límpido, cristalino, brilhante e solar- foi a honra ofendida. O brasileiro só se sente desafiado diante da ofensa, do espancamento facial. Ou nossos vizinhos essenciais não são aqueles que só decidem procurar emprego após um tapa na cara esplêndido e monumental infligido pelo companheiro de relacionamento, varão ou moça de atitude?

E isso acontecia com a seleção à altura daquele jogo em Santiago. Todos vilipendiavam o Brasil. Até a imprensa mais chapa-branca mostrava-se anos luz à oposição do estado de coisas verde e amarelo. Mesmo o mais cebefista dos comentaristas e narradores hesitava em bradar um ‘Avante, Brasil!’. Até o Mandatário-mor da nação, Presidente eleito por 150 % dos votos e gozando de popularidade e aprovação de mais de 348% dos eleitores, exibia e vangloriava-se de seu escárnio diante dos brasileiros e ensaiava um elogio (inexplicável, conforme veremos em breve) à seleção argentina?

É isso, amigos. A ofensa, o tapa na cara, o chute no olho, o quebra-espinha que o selecionado tomava de todos, isso despertou o brio dos homens que estavam em campo. Com exceção do Gaúcho, certamente alvo de um feitiço traiçoeiro, de uma praga egípicia nefasta, de um encosto desamarrado, todos suavam, senão sangue, suor mesmo- coisa que às vezes parece incomum em jogos de seleções- quem assistiu a Copa do Mundo de 2006 sabe que não são só os brasileiros os esnobes da história.

Estou sendo injusto com o Gaúcho. Ele mesmo suava, corria, ainda que fora do peso, lutava contra sua humana condição. O problema é que o encosto, a praga, o feitiço eram maiores- como se viu na penalidade desperdiçada.

Ora, passado o turbilhão, o belo 3 a 0, chegada era a hora da facilidade. Bolívia, no Rio de Janeiro, horário após a novela, nem tanta torcida que vaiasse de maneira abundante e um pouco desvairada… Que mais queriam os brasileiros para aplicar sonoros 17 a 1, 90 a 0 ou alguma goleada semelhante?

E eu vos respondo. Em tempos de bonança, de quietude, o brasileiro senta e devora o céu de brigadeiros que se apresenta à sua frente. Ora, é um docinho gostoso, com bastante chocolate e o granulado dá um toque especial. Devorado o brigadeiro, a bonança, a ventura, ela é toda passada para trás. O brasileiro não consegue conviver com um estado eufórico de muito tempo. São as alterações entre passividade, derrotas, bofetadas e glórias magistrais os traços característicos da pátria.

E, cá para nós, ainda que estivéssemos em tempos de glórias magistrais, qual a grandeza resistiria à CBF?

Outro dia, eu estava comovido feito o diabo, e não sabia direito o motivo- sabia que estava comovido, sentia alguma agonia, mas não conseguia precisar o motivo. De qualquer forma, passou- e eu sei que vai voltar, é a vida.

Confesso que não vi mais que 15 minutos do Brasil e Argentina. Ok, talvez eu tenha visto uns 25 minutos, de maneira intermitente. Não gosto de futebol com limitações de idade- mas um Brasil e Argentina é sempre um Brasil e Argentina, diria o sábio profeta da vênus platinada. Do que vi, é evidente que notei o que qualquer pessoa sensata nota ao assistir um jogo dessa Seleção Brasileira. O time não tem tática, a técnica é obnubildada por algum mistério insondável (só aparecendo em esparsos e inesperados momentos), etc.

Já posso ver o clamor indignado pela cabeça do Capitão de 94, que ocupa hoje oficialmente o cargo de treinador da CBF. ” Adeus, Dunga”, “Fora, desgraçado”, “Saia antes que nós derrubemos o mundo”, isso é o mínimo que se pode registrar do  sentimento médio do torcedor brasileiro. Com alguma razão, mas peço perdão, não endosso o que parte dos meus compatriotas grita de forma alucinada.

Repito, a seleção é terrível, não tem tática ou técnica. A escalação de Dunga não foi ruim, talvez T. Neves no lugar de Diego e T. Silva em lugar de Breno (sem ritmo de jogo e de bola, o que já vem retirando seu nome construído durante sua sensacional temporada de 2007), mas tudo o mais constante, não se havia muito o que mudar.

Por outro lado, a lentidão, o desencontro entre os jogadores, tudo isso poderia ter sido ajustado- com um tempo de treino que o Brasil até teve nessa tal preparação olímpica. Não se pode exigir que os rapazes que estão na China tenham um entrosamento fabuloso, mas que possuam a mínima agilidade na saída de bola, o mínimo elã ao tocá-la e a mínima vergonha na cara ao chutá-la ou cruzá-la, isso todos têm de ter- e se há um responsável por incutir nos jogadores a atividade dos respectivos superegos, esse alguém é o treinador. Se ele não faz isso, a nau afunda, isso é tão certo como 2 e 2 são quatro.

Sim, não é preciso aprofundar análise acerca dos defeitos de Dunga. Notei, porém, uma qualidade mínima, que não havia em Parreira- ele saca um jogador, independente do que se grite- e talvez tivesse feito um bem a um ainda verde Pato, caso Dunga gozasse do mínimo prestígio perante seus comandados.

Certo, não notei outra qualidade para além dessa e de alguma alteração que funciona em momento oportuno (final da Copa América), mas, leitores amigos, confesso-lhes de coração aberto: Não torço para a queda de Dunga.

O treinador hoje é apenas um leve e incômodo pedregulho no futebol nacional e nem de longe faz sombra à maior das ameaças, que é a própria Confederação Brasileira de Futebol, sua diretoria e toda a estrutura que a sustenta- especialmente as Federações Estaduais. A mistura pornográfica de compadrio, incompetência e descaro puro e absoluto traz hoje ao futebol brasileiro conseqüências tão ou mais nefastas que a Peste para a Europa Medieval.

Ora, amigos, basta olhar o estado do campeonato brasileiro. Embora os dirigentes dos clubes guardem parcela espetacular de culpa na penúria pátria, é preciso e mais do que isso, é obrigatório, necessário, imprescindível e eu diria mesmo, mister, afirmar, reiterar e vituperar que é a CBF que (des)organiza o Campeonato Nacional. É a CBF que recebe tubos de dólares para que o Brasil realize amistosos em Wembley e  investe pouco vezes quase nada no desenvolvimento do esporte. Não é à toa que hoje qualquer time europeu (noves fora o investimento de milionários suspeitos ou irreverentes) pegue os principais jogadores do Brasil, além dos medíocres, dos problemáticos e de grande parte dos ruins, restando à Liga Nacional aqueles ainda não percebidos, os que não deram certo por lá (de maneira alguma, depois de 2, 3 ou 4 tentativas) e os veteranos em vias de aposentadoria (sempre protelada pela escassez de qualidade no mercado).

Sim, amigos, é essa CBF o principal problema do Brasil futebolístico. A Copa de 2014, apesar de obsessão, há de ser rateada com o eterno michê (e cafetão) nacional, que é o governo e tudo aquilo que se diz público. Mais uma sangria, mais uma orgia com o dinheiro de todo mundo e mais um tempo de futebol mediano, que só é alimentado pela qualidade essencial do futebol brasileiro (vale uma discussão futura sobre um assunto, uma vez que há um colega que discorda ), pela paixão aos clubes (o grande e eterno charme do futebol) e pela magia própria do esporte, sempre assombrada, assustada e desesperada pela fúria titânica da CBF.

Dunga significa apenas um efeito colateral na degradação causada pela CBF- só sendo possível falar em involução, em termos relativos,  se tomarmos em comparação a Europa (ou mesmo a Ásia), já que os dirigentes tétricos amedrontam o brasileiro desde os tempos de um Moderato.

O mal-estar, a apatia, a azia moral do futebol brasileiro é a CBF e as Federações que a mantêm. Enquanto os brasileiros continuarem a esquecer e só relembrar ocasionalmente esse dado fundamental, continuaremos todos comovidos e assassinados.

Inicialmente, é de se fazer apologético aos caros e parcos leitores deste veículo. Natural que a periodicidade prejudicada das postagens pode afastá-los, mas, amigos, peço que entendam- é melhor não falar nada a tripudiar de vosso tempo.

Ademais, as Olímpiadas têm ocupado meu tempo. Eu não diria exatamente meu tempo fático, o tempo como espectador dos jogos- até porque são tantas as modalidades, o horário é muitas vezes inconveniente e, claro, há muitas competições somente atraem por curiosidade- mórbida, talvez.

Estava eu a admirar os feitos de nadadores, judocas, esgrimistas, praticantes do badminton, tenistas de mesa, hoqueístas de grama, handebolistas e que tais, quando me dei conta e de mim para mim, passei a indagar a viabilidade de acompanhar, como humilde espectador, falido em dotes esportivos e com a boa vontade bonachona que caracteriza todo aquele desprovido de talento, mas milionário da sede pelo desforço e elegâncias humanas inerente aos esportes- o dia a dia, a rotina dos esportes olímpicos.

Imaginei-me acompanhando nadadores a quebrar recordes em Omaha ou Auburn ou  torneios de judô em Cubatão, Seul, Cruzeiro do Oeste, Jacobina, Tóquio, Florença ou Melbourne. Imaginei, imaginei, sonhei, deslumbrei-me com a possibilidade- que, na verdade, demonstra-se impossível.

Desculpem-me todos, porém não consigo compreender a motivação que leva alguém a acompanhar a rotina de boa parte dos esportes sem estar diretamente ligados a eles- como atletas, parentes ou, no mínimo, praticantes ocasionais.

É bem verdade que guardo rudeza e ignorância que me impedem de fruir competições que se distingam de futebol e talvez a isso esteja entranhada a força, malévola e eficaz, do hábito. Minha criação vendo, ouvindo, vibrando, sofrendo e respirando futebol teriam agido a embotar minha sensibilidade? É uma hipótese.

Não é a única, talvez. Afinal, como acompanhar com a mesma ênfase, provas em que não se pode ter perfeita noção do que ocorre ou na qual as situações são diretas, óbvias ou em que rareiam (e estou sendo generoso) as possibilidade de o pequeno ou o francamente pior superarem o gigante, o phelptico, o dreamteanesco?

De modo que é sensacional, é espetacular, mas de tempo em tempo, nos pegamos falando de estádios grandiosos, de ninhos de pássaro, cubos de água, piscinas de 3 metros de profundidade, cidades poluídas, crianças que dublam, fogos de holograma e tudo mais que complete um espetáculo- musical, teatral, cinematográfico, televisivo.

As Olímpiadas são um show de entretenimento espetacularmente divertido. Mas, peço o milésimo perdão, desta vez por falar em pleno curso do evento, jamais podem ser comparadas a eventos no qual o futebol é o centro das atenções.

Pretendia evocar Rui Barbosa. Não que o excelso Cabeça de Nós Todos tenha refletido e discorrido sobre o nobre esporte, a espontânea arte. Não: evoco o Águia em sua Oração aos Moços. Lá, o mais nobre paraninfo já conhecido pelo homem elenca as três coisas às quais devemos respeito e dedicação: Deus, a pátria, o trabalho (e que me perdoem se me equivoco na ordem).

Prezado Cabeção, que vem a ser a pátria? Como poderíamos servi-la? Diariamente, acompanho o serviço pátrio de lorpas, de crápulas e canalhas que se valem do estandarte e do hino para as suas atividades igualmente torpes. Bilac que me perdoe, mas que significa cantar o Hino Nacional vinte vezes seguidas ao se alistar obrigatoriamente junto ao exército brasileiro?

Mas deliro. Divago. Perco-me. Desejo escrever, em realidade, sobre o regionalismo. Porque, no futebol diário e corrente, este que comentamos nas ruas e pelo qual padecemos às quartas e domingos, a pátria é a região, é a cidade, é o bairro. O rival torna-se estrangeiro. Há alguns textos, o companheiro de labuta desportiva refletiu a condição do torcedor exilado. Mantendo um discurso moderno e liberal, realmente sensato e lógico, Rafael B. defende-se de um ataque insensível e cruel.

Compreendo a sua condição. E explico: todo baiano que torce para um time baiano sente-se superior a outro que vibra pelas conquistas de um clube estrangeiro. E assim também eu costumo fazer: eu saio às ruas ostentando o brasão vitoriano como se ele me desse direito - divino e inalienável - de ser respeitado e admirado. Um bolsão de resistência. Algo assim.

Sim, é um procedimento assaz estúpido e inexplicável. Mas futebol e pátria são assim - inexplicáveis, estúpidos. Há algum tempo que percebo o futebol extremamente ligado à terra. Reconheço e perigo de tal posicionamento me levar, quem sabe, à construção de um campo de concentração ou ao fechamento das fronteiras - mas são riscos que um homem precisa enfrentar e diante dos quais deve se manter impávido, são e digno. Nunca pretendi que a minha relação com o futebol e com o país fossem pacíficos: como não detestar o Brasil? Como não vociferar e cuspir nos gramados?

Mas deixemos de abstrações - sei que o leitor, propenso à metafísica, já se perde em meio a Platões e Agostinhos. Discordo do companheiro Rafael B. num único ponto, concordo em outro e relativizo em mais um.

Primeiro: não creio que a escolha de um time seja algo necessariamente inconsciente. Não me refiro, naturalmente, aos que seguem esquadras por moda - desprezemos tais vampiros. Mas há muita coisa outra envolvida na escolha de um time. E aqui, naturalmente, afirmo que pode haver uma “escolha”. Pode ser, por exemplo, uma questão ideológica - e a minha se aproxima disso: iniciou-se como uma virulenta e apaixonada revolta contra a imposição maciça de camisetas e troféus do Sudeste. Não exatamente ressentimento, mas um incômodo - porque pareciam rir de mim. E homem nenhum se presta a que os outros riam dele. Joel Santana, com sua Epistemologia da Palhaçadinha, que o diga.

Há, também, a escolha edipiana. Quantos filhos, em domingos sombrios (vejam as palmeiras balançando, as crianças silenciando - tudo sob o céu nebuloso), não assassinam os pais simbolicamente numa final de campeonato em que o Vasco, time do jovem, esmaga o Flamengo, time do velho? A Grécia evocada. Tolo quem acha que o futebol acontece dentro das quatro linhas.

Hei-de concordar, porém, noutra questão - demonstrando que meu ressentimento de subjugado não é tão poderoso. Não simpatizo com as reclamações contra a imprensa do Sudeste. Sendo do Sudeste, é natural que os jornalistas tratem dos times de lá. Não acompanham o trabalho diário de Vitória, Bahia, Sport ou Náutico - e, naturalmente, não o comentam. Quando o fazem, acabam por escorregar na macumba para turista ou na desinformação, como bem demonstrou Rafael B. Pergunto-me como sobreviveu por tanto tempo a lenda da paz nos estádios nordestinos. Ou a de que a paixão daqui é maior do que a de lá.

Não concordo, porém, com a transposição desse panorama para o contexto estadual. Há uma diferença numérica muito vasta para que não seja levada em conta - e, assim como a imprensa estadual, no cenário nacional, trata dos seus times, a imprensa local acompanha os times de menor expressão dentro do Estado. Tal acompanhamento, por sinal, é a fonte maior do anedotário da imprensa esportiva. Portanto, assim como compreendo a preferência da forte mídia do Sudeste pelos seus times, entendo a preferência dos jornalistas soteropolitanos por suas duas esquadras centrais.

O regionalismo, enfim, já é equivocado desde o nome. Só há regionalismo se há um centro que trata de fazer do outro um cidadão periférico - daí, então, a sua arte e o seu esporte tornam-se pitorescos, engraçados, curiosos. É natural, portanto, a reação diante de tal quadro - logo, o periférico percebe-se central e alheio, central e solitário, central e orgulhoso.

Outros clubes do futebol baiano podem ser mais ricos, mais prósperos, mais badalados pela imprensa, donos até de maior torcida e de maior números de títulos recentes. Nenhum de gloriosa tradição quanto o E.C.Ypiranga, o time de Popó, antigamente poderoso, milionário, invencível, supercampeão, hoje pobre e batido mas, em glórias quem se compara a ele?”  (Jorge Amado)

 

Sim, amigos, eu quero comprar o Ypiranga- e aceito parceiros. Vocês podem me indagar, atônitos, por que eu cometeria um ato desta natureza. Alguns, céticos e anti-crentes, desdenhariam da minha intenção, qualificando-a de absurda ou um disparate.

Por que não fazer um clube novo em Feira de Santana, minha terra natal? Ora, a alma profunda de Feira de Santana já tem o Fluminense, e é este time que lá deve ser alimentado. Infelizmente, nenhum time outro vingou na cidade, a exemplo do Bahia de Feira, Independente, Palmeiras-Nordeste- e mesmo o Fluminense não é lá um exemplo de vitórias. Já há muita gente em torno do clube, então não faz sentido comprá-lo.

É evidente que a cidade do Salvador não se sustenta na rivalidade Ba-Vi. Embora este seja um grande clássico, falta a uma considerável parcela da cidade a integração devida com o futebol. E isso só pode ocorrer com o retorno de uma força maior, força passada, mas portadora, em sua essência, da energia para o futuro.

O Galícia é dos galegos. O Leônico compôs um espetáculo pitoresco nos seus 0 a 10 em Guanambi, mas ainda assim teve um time profissional há pouco. O que me resta? O Botafogo da Bahia. O time alvirrubro, que fazia o antológico clássico do pote, com todo o respeito a suas glórias, dele já não se guarda mais memórias que não aquelas de livros. Um valor mais alto se alevanta. E ele veste as cores auri-negras, daquele que já foi o mais popular e daquele que, certamente, era um grande dos cinqüenta primeiros anos do futebol baiano.

O time que cativou todo o Campo da Graça, time de Apolinário Santana, o Popó, o arrasador artilheiro das décadas de 20 e 30, que despertou a simpatia do Anjo bom da Bahia, de Jorge Amado, das massas verdadeiras, time da mestiçagem, dos pretos e dos brancos e de todos aqueles que desejem o futebol, esse é o time que merece ser reavivado. E é uma ressucitação possível, porque ainda lembro de minha infância a existência de um time profissional do Ypiranga, jogando a segunda divisão do Baiano, passando vexames e definhando até o estágio atual.

Confesso que desconheço o ocorrido pelas bandas da Vila Canária, se diretorias incompetentes, se prejuízos causados pela Federação Baiana ou por qualquer outra coisa, se a falta de oxigênio decorrente das intensas mudanças no futebol. Não sei, nem me interessa.

O que interessa é que se a Bahia deseja ser alguma coisa no futuro, precisa reavivar seus laços com um passado brilhante e o Ypiranga é imprescindível para tal. Restabelecer um clube centenário, carregando a independência do Brasil em seu nome, este intento é o próximo Dois de Julho.

 

 

 

 

 

Outro dia, um companheiro de jornada, desesperadamente bradou para mim, com ar de independência: “Você é um consumidor! Você não torce para um time de futebol, você apenas consome um produto”. E eu quase o vi babar pela camiseta.

Ora, ele dizia, “não existe isso de torcer para um time de fora da Bahia! Baiano é assim mesmo, não dá valor às coisas da terra”. Foi então que eu tive uma catarse. O apelo telúrico do torcedor do Sport Club Victoria da Bahia trouxe à tona todo um processo cognoscivo que me paralisou por boas horas. Afinal, eu seria o menos baiano dos baianos por não respeitar uma instituição da terra, seria quase um baiano anti-acarajé, um sacrílego, um assassino dos alfaiates, um contra-malê, um destruidor da Colina- tudo isso porque visto as cores do São Paulo Futebol Clube.

Sabemos, claro, que o conjunto de atos que leva alguém a torcer por um time não é um processo racional ou direcionado. Por outra: Não é o torcedor que escolhe o time, e muito mais próxima  a verdade está do contrário. Todo o processo inconsciente, de formação do ego, do superego, do anti-ego, do pós-ego e até mesmo do superduperego, os traumas e glórias de infância, o processo educacional familiar e escolar, os doces devorados na mercearia do Seu Joaquim, tudo isso desemboca na relação final entre alguém e o time de sua admiração.

E, no entanto, isso é inaceitável para muitas pessoas. Vejo aqui na região Nordeste, inúmeros reclamarem da subserviência ao Sul (leia-se Sudeste, incluso). Isto, é claro, tem raízes profundas no ressentimento causado pela ascensão econômica e pela proeminência política especialmente de São Paulo, Rio de Janeiro e, vá lá, Minas Gerais e na própria decadência que tomou as terras que se estendem de Teresina e Picos (ou São Luís, algo amazônico) a Salvador (ou Teixeira de Freitas), desde uns 200 anos.

Reclamam também meus conterrâneos da imprensa sulista, que trataria com certo desdém todo o time que não aqueles 12 (4 de São Paulo, 4 do Rio, 2 do Rio Grande do Sul e 2 das Gerais) e do domínio existente nas federações, conselhos de arbitragem, museus, livros e qualquer coisa que inclua futebol e discursos sobre o mesmo.

Assistindo um noticiário produzido no Rio ou em São Paulo, só posso concordar com meus colegas. Por maior que seja a boa vontade com que um grande do jornalismo esportivo, Juca Kfouri, trate o Esporte Clube Bahia, por exemplo, sinto que o olhar presente é a de alguma coisa exótica, excentricamente deslumbrante. É o que se nota nos comentários sobre a torcida, ou melhor, todas as torcidas do Nordeste. Mesmo o elogio, em relação à fidelidade das mesmas, acaba resvalando num maravilhamento com o pitoresco, com o algo mágico da região.

Isso quando não cai na desinformação ou na informação prejudicada pela distância mesmo. É o caso do trivela.com.br afirmando o Victoria da Bahia como um time inferior ao Paraná Clube ou qualificando o trabalho (mediano) de Vadão como esgotado (quando o que se notava era um péssimo time, formado de maneira estranha e esquisita pela diretoria) no momento de problemas do Campeonato Estadual .

Ok, aceito o argumento- e mesmo aquele que constata a decisão dos juízes a favor de alguns times quando na dúvida. É uma generalização, claro, e comporta torrentes de exceções.

Só que eu lembro, não nasci em Salvador, Recife ou Fortaleza. Nasci em uma cidade com pouca tradição futebolística e com um time, que se já fez um bom papel aqui ou ali, hoje enfrenta dificuldades tremendas. Como já disse, sou sensível ao apelo telúrico, e desde pequeno, acompanho a trajetória do Bravo Touro Pioneiro, o Fluminense de Feira. Não posso dizer que sou um torcedor, até porque, claro, isto não é um processo consciente, deliberado. Mas sempre guardei a simpatia. E guardo nas memórias profundas e coletivas, as histórias de mutretas contra times do interior. E, vejam só!, os personagens vilânicos da história são as vítimas dos primeiros parágrafos. Bahia e Victoria aparecem como aqueles que ajudaram a retardar o desenvolvimento alheio no Estado.

Ligo a TV num noticiário esportivo local, e uma nova catarse me leva ao desmaio. Acordo, mudo de canal duas vezes e quedo catatônico. O noticiário estadual fala de Bahia e Vitória em proporções desiguais, tempestuosas, quando comparados a outros times. Sim, se isso é bem verdade quando a maioria dos clubes do Estado está em recesso, também é quando os times estão em atividade. Claro, os campeonatos estaduais servem mesmo para o entusiasmo e a pré-temporada dos grandes (ou dos pequenos que se querem enormes).

Parece-me claro que sempre haverá insatisfação com o espaço dado. Parece-me claro que sempre alguns times chamarão mais atenção que outros (e que hoje a mídia paulista, carioca, gaúcha ou roraimense teme mais o Victoria ou Sport Club do Recife do que o Atlético Mineiro).
E mais cristalino do que água ou do que o próprio cristal, posso asseverar que o ressentimento é uma arma que só serve para esconder fraquezas e proteger estruturas ridículas- como certas diretorias e federações.

Antes do confronto com o Fluminense, ontem, no Maracanã, meu pai perguntou-me, enfático:

- Com 40 pontos um time tá livre do rebaixamento?

Como não decoro números, fiz uma breve pesquisa e vi que o Goiás, ano passado, permaneceu na série A, no sufoco, com 45 pontos. Com 44, o Corinthians caiu. Passei-lhe a informação e ele, meio aliviado, disse:

- Então já estamos quase na metade, meu filho!

O torcedor do Vitória, no geral, comporta-se dessa forma. Que importa os resultados recentes, a bela campanha, o treinador competente e sensato, Marquinhos voando em campo ou Marcelo Cordeiro comendo grama na lateral esquerda? O histórico de fracassos rubro-negro não pode ser facilmente superado - por isso, meu pai pensa no rebaixamento.

Assim como eu pensava até as últimas cinco ou seis rodadas. Minha preocupação, porém, não vinha do pessimismo onde viceja cada torcedor do Vitória, mas da campanha no estadual e do ridículo título obtido. O elenco, envelhecido e ruim, não inspirava confiança. Mas lá está o rubro-negro, num ponto quase extremo da tabela - goleando, vencendo Internacional, conseguindo pontos fora de casa.

Perdeu, ontem, para o Flu - que trata de se recuperar com mais humildade. Não foi um resultado anormal, ninguém se desesperou: no planejamento do Vitória, sejamos francos, o máximo que se sonhou foi uma Sulamericana. Vai, então, acumulando pontos que - no momento em que Marquinhos ou Williams ou Anderson Martins forem vendidos e Mancini sumariamente expulso de São Salvador pelos radialistas - muita importância terão para a permanência na Série A ou, quem sabe, uma participação num torneio continental de menos brilho que a Libertadores, mas ainda assim com seu valor.

A bela trajetória do Vitória, no mais, serve para dar alento e graça ao moribundo futebol baiano - mesmo que seja efêmera, a boa fase enobrece e leva o povo aos estádios. Assim como torna o jogo mais importante do meio de semana este que será disputado no Barradão - Vitória e São Paulo enfrentam-se e têm todos os olhos para eles voltados.

A Bahia, em meio à sua falência, ousa um suspiro derradeiro.

O personagem da semana que decidiu a Taça Libertadores do Ano da Graça de 2008 poderia ser o Waldir Peres equatoriano, o rapaz de 38 anos chamado Cevallos, que além de ter gerenciado boa parte do tempo em favor de seu tempo, ainda foi magistral na cobrança de pênalis. Sim, magistral e não há outra palavra para sua atuação. Mas não se pode premiá-lo com mais nada, afinal, o arqueiro já é campeão da Libertadores, e o que mais há de querer neste ano?

Poderia ser também nossa personagem o Sr. Baldassi, a quem é difícil qualificar. Ora soa como um juiz de Mil novecentos e antigamente, que sentia prazer em prejudicar times, em outros momentos parece que é incompetência colossal mesmo. Mas não, ele não. E longe deste QueméaBola? ter fobia de argentinos, como o Presidente “pó-de-arroz”.

Não, não, não, amigos. O personagem cabal, irretratável, irrenunciável é Renato Gaúcho. Sim, o Portaluppi ídolo dos gremistas de há muito, ídolo dos cervejeiros desde 1995 e dos churrasqueiros desde 1992-3 e técnico desde 1996 (ainda interino).

Sim, ele é o personagem, principalmente por algumas injustiças que têm sido ditas. É preciso dizer primeiro: Ele é a ponta de antipatia no Fluminense, isso é um fato escandaloso. Vejam só, parceiros deste blog, que o Glorioso Timinho, contra o qual é impossível torcer caso não se seja flamenguista, teve muita gente o detestando, e tudo por causa de Gaúcho. Eu mesmo confesso que não gosto e devo muito isso a minha convicção inabalável (mesmo que os fatos me ataquem) de que só a humildade excessiva é gloriosa. Sei que isso não é verdade, e dou glórias aos Céus que todos não pensem comigo, mas ainda assim, instintivamente, de modo genético ou mesmo religioso, mantenho esse desgosto de quem é auto-confiante. Ainda assim, não posso coadunar com as críticas que vêm sido feitas.

Ora, mesmo quando o Fluminense vencia São Paulo e Boca Juniors, fomos os primeiros a afirmar que o time era muito exposto e que ainda falta muito para que Renato seja considerado um grande estrategista. É de ver que os dois laterais do Fluminense são pontas, que os dois meias armadores marcam muito mais pela vontade ou de acordo com o ritmo  e empolgação da partida do que por disposições táticas- e todos vimos a tentativa infrutífera de se escalar 3 centroavantes com o uniforme titular do Tricolor carioca. No entanto, parte da imprensa parece ter despertado para esse detalhe somente agora, com a derrota.

É certo que é inglória a missão de um jornalista do futebol. Ele tem de se equilibrar na corda do agrado ao torcedor e na visão fática. Pior, ele ainda deve estar atento ao extrafático, ao sobrenatural que permeia os gramados mundiais. É inglória e até vã essa faina. Contudo, é preciso ser fiel ao que acontece (e ao que não acontece, mas se insinua). É chato e aborrecido ver agora reclamarem de Gaúcho nessa sua limitação, que pode ser superada, mas não é algo que se altere da noite para o dia.

Agora, o que não dá para aceitar, o que é irritante, indigno e por outra, é de um descaro húnico, digno dos piores inimigos da Roma caída, é a insurgência contra o perfil motivador do técnico. Amigos, amigas e respectivos animais de estimação: o Fluminense só chegou aonde chegou porque Renato Gaúcho gritava que era possível. Sim, faltou o principal, que era o título, sim, faltou o essencial mesmo, mas convenhamos: Como Renato, mesmo se fosse um César, um Napoleão, um Elizabeth, um Felipe II, se portaria diante das vitórias sobre São Paulo e Boca, do jeito que ocorreram? Como se comportar diante da euforia de uma torcida que, vamos, venhamos e convenhamos quatro vezes, passou por perrengues terríveis na última década e só agora alcançara os píncaros?

Vos digo a todos: Era a maior das missões. E era impossível para alguém do perfil de Renato Gaúcho. De ele para ele, era contra sua natureza, levantar e falar:  “Meninos, rapazolas, garotada, turma! Olha só, vencemos o maior campeão americano da década, o time imbatível da América que amedronta a todos no continente de Bolívar, San Martin e Frei Caneca,  vencemos o brasileiro mais bem sucedido em competições internacionais que há e agora, vejam só, agora ainda temos mais 2 jogos! E ainda podemos perder!”.

Analisem. Ele seria desmoralizado, tripudiado, perderia toda a autoridade, cairia na auto-contradição, total e assassina. Companheiros de jornada, pobre Renato. Tal qual o rei da anedota, o rei do almanaque, aquilo que fez sua grandeza e a de seu time, o fez perder no fim. Não tanto pelo jogo do Rio (quando mais uma vez, a motivação um tanto arrogante, um tanto só confiante deu alento a um time que havia sido esmigalhado), mas pela partida desastrada de Quito.

A quem amaldiçoa Portaluppi por não ter mexido no ataque, penso no que não diriam, caso o time perdesse com Tartá em campo. Seriam chuvas e trovoadas de reclamações e impropérios.

A quem culpa Renato por ter poupado o time, etc, basta alguém ter acompanhado os jogos do Fluminense no Brasileiro. Com exceção do segundo tempo contra o Sport, o time todo (inclusive os titulares contra o Santos) jogava com a cabeça em Marte, Júpiter, na Lua, ao lado de São Jorge ou não sei mais onde. Era um time desconcentrado e quase em festa. Ele não tinha muito o que fazer- e a entrevista que ele deu após a partida contra o time do litoral paulista foi a prova de que ali estava chegado um limite à magia do Fluminense.

E somente porque o futebol é cruel, dando e tirando a magia e a estrela com tamanha intensidade, é que Renato Portaluppi é o personagem da semana passada.

Todos sabíamos que a decisão da Libertadores da América seria dada em termos extrafutebolísticos, extraterrenos, e digo mais: extrafáticos. Sabíamos também que havia algo de especial no Fluminense que fulminou o São Paulo no apagar das luzes do Maracanã (após uma artilharia intensa durante parte do jogo) e que esmigalhou o Boca Juniors, que pareceu um time chileno ou equatoriano comum da Libertadores.

Veja bem, eu falei em time comum equatoriano. Quando falam em futebol no Equador, alguns riem, outros fazem piadas e há uma terceira fatia de pessoas que nega haver futebol no país, ou que se há, pertence ao Exército, ou ainda, que nem mesmo existe um país com o nome do meridiano. Estão todos errados e de uma forma retumbante, crassa, avassaladora, guerronesca, eu diria.

Esse time da LDU não foi considerado por ninguém. Eu mesmo dei por favas contadas o título tricolor. Até digo de novo que a Liga de Quito é mediana e não mais que isso. Os jogadores também contavam com a Taça e era possível ver o sorriso no rosto “pó-de-arroz”, mesmo quando perdia no Brasileiro. O recheio da bolacha estaria guardado para o 2 de julho. E os jogadores pareciam corretíssimos, dada a Estrela que alcançava o Flu. A questão foi ter encontrado os Brancos num dia da mais pura felicidade futebolística.

Foi com a ajuda dessa magia da bola que os equatorianos conseguiram, de uma bela maneira, a vitória de ontem/hoje.  Por isso, falemos do jogo, por ora, não em termos óbvios, pois todo mundo já viu e reviu e treviu o que aconteceu. Thiago Neves calou minha boca. O jogador apagado dos confrontos contra o São Paulo chegou ao ápice da possibilidade de um grande jogador da bola latino-americana, marcando 3 tentos na Final. Todavia, o problema do Fluminense foi a apatia e o nervosismo que tomou boa parte do time. E os defeitos, visíveis ao longo da campanha, mostraram-se claros: O time não tem meio-de-campo defensivo, resumindo-se o esquema tático a um defesa-ataque. A sobrecarga dada a boa zaga da equipe (um beque é excelente, o outro bom e identificado com a equipe) mostrou-se complicadíssima- o que, aliado à necessidade de marcar 2 (e logo após 5 minutos, 3) gols, tornou tudo mais grave.

Mas T. Neves explodiu as redes 3 vezes. E a última aos 12 da segunda etapa regular. Ou seja, foi possível vencer, mesmo com o descaro do juiz e de seus auxiliares no primeiro tempo (pelo segundo tempo, não tive a impressão de ter sido nada premeditado, uma vez que a LDU foi prejudicada. O chega pra lá que Branco deu no Sr. Baldassi, porém, mantém as suspeitas de que o rapaz age mais do que por incompetência própria, pelo total e doloso impudor de roubar, independente de que para que lado seja).

Pois, o time das Laranjeiras teve 30 (e depois mais 30) minutos para fazer um gol- não conseguiu. Ainda tomou calores da LDU, deixando arrepiadas as 80 mil almas que vibravam no Mário Filho. E, claro, era evidente que a partida era extratática, extratécnica, extrafutebolística. Um pouco porque na América do Sul a tática ainda é algo que se valoriza menos que o gol, o puro e simples gol (uma característica problemática, mas não necessariamente negativa) e a outra porque numa final de Libertadores, todos os espíritos rebeldes e profundos acompanham de perto o espetáculo- transformando pessoas, que em um dia cantavam de galo e no outro choravam feito crianças.

Falam-me de Cevallos. “Canalha! Fez cera! Cadê o juiz?” Vejam bem, o goleiro fez o que devia para conseguir a Taça, só agindo no limite da irresponsabilidade quando da cobrança de T. Neves (poderia ter sido expulso ali). No mais, a partida não pode ser explicada pela malandragem. Está claro que foi o futebol, em todos seus aspectos, e principalmente nos seus contra-aspectos que fez da Liga Deportiva de Quito a vencedora do 2, do 3 e do mês de julho.

PS: Ah, sim, o oba-oba. Não foram as declarações de Renato Portaluppi o sintoma de que algo trágico poderia acontecer, até porque o argentino que dirige a LDU também aparecia com um discurso entusiasmado às escâncaras.  Mais do que isso, foi a própria atitude (deveras compreensível, confesso) do time, que ao passar Boca e São Paulo, acreditou que o objetivo já estava alcançado. O comandante do escrete pode ter alguma responsabilidade, mas não é o culpado. O time é o que é e o que todas suas peças (incluindo massagista, roupeiro, macaco de auditório, mulher do dirigente) fazem dele.

Soube que um conhecido meu, assim terminado o Campeonato Europeu de Seleções, berrou a todos os cantos: “Os bascos danaram-se!”, “Adeus, Galiza”, “Chore, Catalunha!”. Naturalmente, o rapaz exagerava. Certamente não eram todos os habitantes de fora de Castela que vibravam com a vitória espanhola.

Paro e penso. A Espanha venceu. Repeti isso três vezes no domingo e cinqüenta vezes na segunda-feira, mas ainda não me dei conta totalmente. A Espanha venceu. Mais que isso. O escrete do Reino de Espanha jogou de forma incisiva nos três jogos fatais, não fraquejando em nenhum momento. Sim, amigos, isso é notável. Desde que nasci, o destino do selecionado espanhol era a derrota, e o que é pior, a derrota nas mais pitorescas circunstâncias, pela mais desagradável chacota futebolística. Eram bolas debaixo das pernas, juízes atacando de forma inusitada, cotoveladas e de quando em quando goleadas vexatórias, que mais do que eliminar, punham o time como alvo do escárnio geral. Nem a mais inocente alma acreditava na Espanha em competições internacionais. Todos sabiam que o time passaria. Todos sabiam que a Espanha perderia nas oitavas ou nas quartas.

E tudo mudou, porém. O time fez belíssimas atuações (com Fábregas no banco, cidadãos! Fábrehas estava no banco!), ofensivas, com certa consistência defensiva (com Puyol e Sérgio Ramos na zaga, colegas!) e com um Marcos Senna inspiradíssimo. Sérgio Aragonés conseguiu aquilo que ninguém (eu sou um desses) acreditava fosse possível a ele alcançar. Sucumbiram helênicos, russos (por duas vezes, para desespero do mais rasputiniano dos espectadores), suecos, italianos e os pobres alemães, que possuem a esquadra mais ofensiva desde pelo menos 1994, mas anda sem sorte nos confrontos decisivos em que triunfara nas décadas passadas.

Belo time, bela esquadra, ótimos Villa, Torres e companheiros, que fizeram, mesmo que por um tênue segundo, por um frágil e instável átimo, um Reino fragmentado parecer-se com uma Nação vitoriosa.

Mas não posso deixar de falar do restante da Eurocopa. Começo pela impressão que tive dos times. Simplesmente embasbacante a disposição dos jogadores. Falaram-me de um ou outro (especialmente os turcos) que saiam do jogo com ganas de guerra. Confesso, tive medo, que rompesse ali, a qualquer momento, mais uma Batalha em solo europeu. Acamalvam-me, contudo, as moças sorridentes, os senhores e senhoras de famílias acenando para a câmera de TV, todos contentes com os belíssimos espetáculos que viam. Mesmo os horríveis e pavorosos escretes da Áustria, Suíça e Grécia soavam interessantes ou ao menos comprometidos com a estética. Eram, pode-se dizer, renascentistas todos os que disputaram a competição. De todo modo, ainda estou curioso e nervoso: Por que os jogos da Eurocopa foram tão melhores que boa parte dos jogos de 2006? Não culpemos os não-europeus. Foram os times do Velho Mundo responsáveis por boa parte do desânimo e da apatia da Copa na Germânia. Então, o que explica? Fica a pergunta.

Falo ainda da Holanda, de quem não vi os jogos, com exceção da eliminação para a Rússia, time agradável e não surpreendente para quem acompanha a trajetória do, p.ex., Zenith, de São Petersburgo.

Não poderia a minha pessoa deixar de mencionar a belíssima e enfurecida Turquia, minha insatisfação de não ter assistido Alemanha X Portugal (agradeço ao trabalho por isso) e os meus risos com mais atuações ruins do time italiano. Um outro conhecido teima em dizer que o futebol italiano, em qualidade de jogadores, é comparável ao brasileiro, sendo o catenaccio o grande responsável pelo horror que o jogo da Azurra causa a nossas vistas. Estaria certo meu bom rapaz, caso não fosse a cultura, claro, algo de mais essencial do que qualquer propensão inata ao futebol. Afinal, de nada adianta meu dom de falar com extraterrestres, se eu não conheço um mísero marciano ou jupiterino.

Isso é assunto para outra hora, porém. Fiquemos com a lembrança dos bons momentos de ótimo futebol na Euro. Que sirva de exemplo para os próximos campeonatos.

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